O arquivo de imagens, resultante do trabalho do fotógrafo Zinclar, entre 1994 e 2013, foi reconhecido publicamente por seus parceiros como um instrumento ativo de comunicação visual dedicado exclusivamente às questões e objetivos dos movimentos sociais em suas lutas anticapitalistas e de enfrentamento às práticas colonizadoras. Após seu falecimento, em 19 de janeiro de 2013, este arquivo se converteu no Acervo João Zinclar.
O processo de gestão e organização deste acervo vêm sendo uma tarefa coletiva de várias frentes dos movimentos sociais.
Apresentamos aqui um breve relato deste processo.

Primeira fase: seguir os passos de João – 2013-2018

Logo após o falecimento do fotógrafo, em fevereiro de 2013, seus pertences foram levados para casa de um familiar. Em abril do mesmo ano, um grupo de militantes, com os quais Zinclar atuou nas áreas de formação política e democratização da comunicação, assumiu a tarefa de ajudar sua filha a dar seguimento às atividades de preservação e difusão de seu legado.
Em março de 2013, trabalhadores e parceiros do MIS assumiram a tarefa de elaborar um plano de salvaguarda, contudo sem contar com aportes financeiros do município, apenas com a autorização para uso do espaço e liberação das horas trabalhadas. Importante registrar que o MIS foi uma das instituições de caráter público com que Zinclar manteve vínculos de colaboração voluntária, foi também um dos fundadores do Coletivo de Comunicadores Populares e da Mostra Luta, na qual atual entre 2009 e 2011.
João Zinclar se considerava “um operário da fotografia”, a primeira questão a ser enfrentada foi a própria opção política do agente produtor do acervo: não manter nenhum vínculo com fontes de financiamento, públicas ou privadas, ou qualquer subordinação laboral com instituições cujos propósitos conflitem com os objetivos e interesses das lutas sociais. Sob os mesmo critérios, em 2013, foi criado o Grupo de Trabalho Acervo João Zinclar – GT AJZ integrado por: Victória Ferraro Lima Silva, Sônia Aparecida Fardin, Batata, Carlos Filipe Tavares, Danilo Ciacco Nunes, Valdir Paixão Rodrigues Júnior, Orestes Toledo, e Augusto César Buonicore (em memória).
A tarefa inicial do GT AJZ foi dar os primeiros passos para a salvaguarda e a continuidade da relação com os movimentos sociais.
As ações de organização foram realizadas ainda na casa de familiares, onde o acervo se encontrava. Em agosto de 2013, o acervo foi transferido para o MIS, onde teve sequência o trabalho de pesquisa, organização e difusão. Os recursos materiais e logísticos sempre foram subsidiados por contribuições militantes. Trabalharam no inventário e na digitalização: Sônia Ap. Fardin, Eliana Mota, Manoel Silva, Danilo Ciacco e Pedro Joly Guarita. Ainda em 2013 o grupo editou um documentário e realizou uma exposição.
Neste caminho, passos importantes foram realizados: em janeiro de 2014 foi finalizado o backup das mídias em HD, em 2016 foi concluído o inventário geral dos negativos e das mídias, assim como a primeira etapa da digitalização dos negativos, o que tornou possível quantificar os conjuntos em: 53 mil negativos flexíveis, acondicionados em 1895 invólucros plásticos, e cerca de 180 mil imagens digitais, gravadas em 884 mídias CDs e DVDs. Além de jornais, revistas e impressos diversos.
Para este trabalho o primeiro passo foi identificar todos os procedimentos praticados pelo fotógrafo na gestão de suas atividades, com o cuidado de não realizar nenhuma intervenção que comprometesse a compreensão mais ampla dos conjuntos de documentos. O passo seguinte foi a identificação de todos os suportes, assim como todas as informações complementares que pudessem orientar o inventário e a organização inicial das séries.
Neste processo, foi possível verificar que Zinclar era um trabalhador organizado. Em seu computador havia registros de atividades de seus planos de trabalho. De imediato foi possível também identificar a organização já realizada por ele: todos os negativos estavam ordenados cronologicamente e com carimbos de identificadores de data e local. Também os originais em digital estavam organizados em CDs numerados e ordenados por projetos. As imagens em original digital sobreviveram exatamente devido a este sistema de backup, pois o único HD que Zinclar possuía, onde os originais digitais foram por ele organizados, estava danificado, possivelmente por algum incidente após seu falecimento.
Assim, seguindo os registros de Zinclar, os primeiros passos do GT AJZ foram: inventariar os CDs, registrá-los em planilhas e copiá-los em outro HD. Toda esta ação foi possível, com certa agilidade, porque Zinclar já havia realizado as etapas primordiais de organização dos dados. Foi possível verificar que, de forma disciplinada, ele realizava essas tarefas concomitante à execução de cada trabalho.
Os resultados das pesquisas, realizadas entre 2013 e 2018, possibilitaram a criação do site e a participação em encontros e seminários internacionais: Olhar forjado na luta. Apresentação oral. I Encontro de Cultura Visual, iniciativa do GT Cultura Visual da SOPCOM, Coimbra – Portugal. Universidade de Coimbra, realizado em 12, 13 e 14 de novembro de 2015. – Fotografía y lucha de clases: Imágenes de la clase trabajadora en movimiento. Apresentação oral. 8º Conferência CLACSO – 1º Foro Mundial del Pensamiento Crítico. Buenos Aires – Argentina. 17 a 23 de novembro de 2018. Ambos apresentados pela hitoriadora Sônia A. Fardin.

Diversos atendimentos à solicitações e autorizações de usos de imagens foram realizados, contudo, no tocante às ações de pesquisa e organização, devido às dimensões quantitativas do acervo, os maiores desafios estão na guarda e na ampliação do acesso. Algumas tentativas de constituir uma organização social sem fins lucrativos foram realizadas, mas não lograram vencer as barreiras burocráticas.

Segunda fase: somando forças – 2018-2021

Como parte das estratégias do Golpe de 2016, intensificaram-se os desmontes das políticas públicas da área cultural em geral. Em função disso, em 2018, o GT AJZ elaborou um novo plano de gestão integrando outras duas instituições: Casa de Cultura Tainã/Rede Mocambos e o Arquivo Edgard Leuenroth – Unicamp.
O objetivo é dar continuidade aos estudos deste acervo, somando forças com instituições de perfis distintos: uma das casas de cultura que é referência nacional no movimento social de memória e comunicação popular e um centro de excelência da universidade pública.
Neste novo arranjo, a custódia da totalidade dos documentos (mídias, negativos e impressos) foi entregue ao Arquivo Edgard Leuenroth, que possui um armazenamento em condições ideais e maior estabilidade institucional. No MIS ficou apenas um backup parcial das digitalização dos negativos.
O GT AJZ continua responsável pela difusão do acervo. A ação conjunta com a Casa de Cultura Tainã e a Rede Mocambos é uma iniciativa que visa intensificar as relações com os movimentos sociais, e dar seguimento aos principais propósitos que culminaram na existência do próprio acervo: criar territórios coletivos comprometidos com o fortalecimento das lutas populares por auto organização nos campos da memória e da comunicação, com explícito caráter anticapitalista.
Neste propósito, foi criada uma área na plataforma Baobáxia, que é totalmente desenvolvida em software livre e autogestionada por ativistas da Rede Mocambos. A palavra Baobáxia é fusão de Baobá e Galáxia, para denominar uma plataforma organizada em repositórios denominados de múcuas, que é o nome do fruto do Baobá, uma árvore de origem africana. Baobáxia é um território digital livre, voltado às necessidades e objetivos comunitários, com foco na construção de um outro modelo de sociedade em bases comunitárias, autônomas, solidárias e não mediadas pelas relações capitalistas.
Para disponibilizar seleções das séries do AJZ foi criada a Múcua João Zinclar – MJZ  – https://baobaxia.mocambos.net/#mocambos/mjz/bbx/search

Nestes oito anos, o GT AJZ tem divulgado o acervo, administrado o site e dado atendimento aos pedidos de utilização de imagens, seguindo os mesmos princípios com os quais o fotógrafo atuava, sem nenhuma vinculação com propósitos comerciais.
As ações estão concentradas na elaboração de exposições virtuais, mas, sem perder de vista a necessidade de aprofundar as pesquisas para ampliar a compreensão e o acesso a todos os conjuntos.
Para uma maior compreensão deste acervo e as relações que nele se imbricam, é ainda necessário ampliar e detalhar o mapeamento dos sujeitos políticos envolvidos. Até agora as principais entidades parcerias e atuações conjuntas identificadas são: Jornal e Revista do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (Nacional), Comissão Pastoral da Terra (Nacional), Jornal Brasil de Fato (Nacional), Sindicato dos Químicos (Campinas), Sindicato dos Metalúrgicos (Campinas), Sindicato dos Professores (Campinas), Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil (campinas), Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp, Sindicatos dos Correios, Companhia de Abastecimento de Água (Campinas), Casa de Cultura Tainã (Campinas) e com os trabalhadores e frequentadores do Museu da Imagem e do Som de Campinas.
Até o presente momento, o levantamento das temáticas registradas aponta uma diversidade de interlocuções no terreno das lutas sociais por direitos à terra, moradia, trabalho digno, saúde, transporte, educação, diversidade religiosa, liberdade e equidade de gêneros, defesa das águas e florestas, combate à destruição dos povos indígenas e quilombolas, combate ao racismo, ao machismo e à homofobia.
Uma das bandeiras principais presentes no Acervo, que de certa forma dá substância às demais temáticas, é a Comunicação Social como um direito universal e a Comunicação Popular como uma indispensável prática política de resistência. Esta bandeira foi um dos grandes motivadores da atuação de Zinclar, como sindicalista, como fotógrafo e como gestor de memória.

Solicitações de de atendimento podem ser feitas para: institutojoaozinclar@gmail.com

 

MOSTRA LUTA 2013 – Homenagem ao fotógrafo
MOSTRA LUTA 2013 – Exposição em homenagem ao fotógrafo
MOSTRA LUTA – 2013
MOSTRA LUTA – 2013
MOSTRA LUTA – 2013
Lançamento da segunda edição do livro “O Rio Rio São Francisco e as águas no Sertão” – 2015
Lançamento da segunda edição do livro “O Rio Rio São Francisco e as águas no Sertão” – agostos de 2015 – Foto: Robson Sampaio
Lançamento da segunda edição do livro “O Rio Rio São Francisco e as águas no Sertão” – agosto de 2015 – Foto: Robson Sampaio
Mucua MJZ – Baobaxia – Rede Mocambos